A aventura Chilena parte 4: Valparaíso, suas cores e a casa de Pablo Neruda em Isla Negra

Arte urbana em Valparaíso

Difícil missão essa minha, de tentar mostrar um pouco dos tantos encantos de Valparaíso.

Assim que cheguei no centro, dei uma olhada no meu guia Lonely Planet sobre hospedagens. Sabia que a cidade devia ter muitos hostels bons e, embora minha ideia inicial fosse acampar sempre que possível, em Valpo decidi ficar em hostel porque os campings eram mais retirados do centro, o que dificultaria minha circulação pela cidade. Além, é claro, que hostels sempre foram lugares bem propícios para se encontrar outros mochileiros. E de fato, foi o que aconteceu…

Achei o Hostel Jacarandá bem legal e marquei no mapa do guia. Mesmo tendo a mochila pesada nas costas, decidi dar uma caminhada na cidade antes de ir pra lá. A primeira parada, que era já caminho, foi um dos seus diversos ascensores, que são os famosos elevadores espalhados pela cidade para facilitar a subida aos íngremes cerros.

Eita porra, não vou conseguir subir nesse negócio aí, não. Esse vagãozinho vai vir abaixo comigo dentro e acabou-se minha viagem aqui mesmo.

 

Elevador El Peral, em Valparaíso.
Elevador da cidade de Valparaíso.

Superado o trauma da subida, larguei minha mochila e fiquei observando por algum tempo, o trabalho do – que eu chamei de – maquinista. A minha sorte que eu fiz isso depois de ter subido pelo elevador, porque se tivesse feito antes muito provavelmente não teria usado nenhum deles. Tem um videozinho que fiz, no final do post, que vais poder ver.

Estalos, alavancas, rodas, botões piscando e portas metálicas barulhentas fechando, um maquinário bem antigo puxa aqueles pequenos vagões morro acima e abaixo, e para quem tem medo de altura como eu, é uma experiência e tanto.

Continuei a caminhada tranquila até o hostel e assim que cheguei fui informado que haveria um churrasco de noite. Beleza, já tava me sentindo em casa, né? O hostel era composto de duas casas separadas uns 50 metros uma da outra. O assoalho de madeira e as portas, quase todas, rangiam. A casa onde fiquei era bem antiga, mas as camas eram muito boas e os quartos eram bem espaçosos, com dois ou três beliches, no máximo. Larguei a mochila na cabeceira da cama e saí novamente para comprar algo para beliscar até o horário do churrasco.

O churrasco era tipo 15 reais e tinha que levar aquilo que ia consumir de bebida. Os vinhos chilenos são maravilhosos e lá custam pouco. Aqui no Brasil, infelizmente, chegam com alguns tributos e ficam mais carinhos. Peguei uma garrafa de vinho até porque percebi que não fazia tanto calor, então um vinhozinho caía bem.

Chile, Brasil, Itália, Estados Unidos, Inglaterra, Austrália e Alemanha, uma mesa farta de histórias, regadas a deliciosos espetinhos de carne com cebola, tomate, pimentão, músicas, risadas, diferentes visões sobre o mundo e sobre a vida. Em certa altura, já um pouco animados com os vinhos e outras bebidas, cada um colocou algumas músicas dos seus respectivos países. Eu fiquei surpreso com a alegria que escutamos Chico Buarque, e ainda arriscamos alguns passos.

Adoro esses encontros casuais onde você conhece boas pessoas, começa a falar de coisas profundas, as razões de se existir, sobre o destino, vida extraterrestre, entre outros tópicos típicos de quem já está meio bêbado (ou não, eu particularmente falo sobre isso sóbrio também). Ainda estou tentando resgatar alguns nomes e e-mails das pessoas que conheci lá, hábito adquirido ao longo das minhas viagens. Mesmo que tenha sido um rápido encontro e conversa, a energia daquelas pessoas era tão boa que parecia que éramos todos velhos amigos de estrada.

A casa de Pablo Neruda em Isla Negra

Na manhã seguinte, entusiasmado com o que me haviam falado sobre a casa do Neruda em Isla Negra, acordei cedinho, comprei um saco de pão fatiado, presunto, queijo e tomate, preparei uns achocolatados dentro de umas garrafinhas de água e me fui, de ônibus urbano mesmo.

A casa do Pablo Neruda em Isla Negra é algo surreal. Ele foi uma pessoa super influente, e por também ter sido cônsul, colecionava objetos e presentes do mundo inteiro. Hoje, todos esses presentes estão espalhados por suas três casas, mas dizem que essa é especial. Neruda e Matilde passavam a maior parte do tempo aqui, perto do mar, ao som impressionante das ondas que se chocam com as pedras. O quarto do casal era simples, mas com uma vista indescritível. Com duas gigantescas janelas, a cama é alinhada com o pôr do sol, o que me fez um pouco de inveja. Sorry.

Casa de Pablo Neruda em Isla Negra
Casa de Pablo Neruda em Isla Negra

É um cômodo mais impressionante que o outro, coleções de conchas, esculturas, barcos dentro de garrafas, tudo ali dentro tem uma história incrível. O áudio guia é bem claro e vai mesclando a história do Pablo Neruda, suas poesias e os itens da casa. Eu viajava pra bem longe observando cada detalhe que Neruda preservou ali com muito carinho e zelo. O bar com o nome dos seus amigos talhados nas paredes me fez perceber que compartilho dessa vontade de manter as pessoas e as recordações com elas sempre vivas. Como é proibido fazer imagens dentro do local, separei algumas imagens que o site da Fundación Neruda traz aqui nessa galeria.

Tomei um tempo ali próximo do túmulo do casal, imaginando como teria sido a vida deles e pensando naquilo tudo que eu havia escutado pelo guia. Me deu vontade de ler mais de seus trabalhos.

Túmulo de Neruda e Matilde
Mais referências ao mar

Depois de conhecer a casa e caminhar pelo pátio, me encantando a cada pouco pelas coisas que via, desci até a areia, peguei minha mochila quase térmica e fiz um piquenique ali mesmo, sobre uma pedra em frente à sua casa, escutando o mar, algo que sempre me traz calma e tranquilidade.

Praia em Isla Negra
Praia em Isla Negra

Valparaíso e Viña del Mar sem roteiros

Cheguei do passeio de Isla Negra introspectivo, mas como foi um passeio rápido, de meio dia mais ou menos, fui pra rua bater fotos. Eu saía sempre com a câmera em punho, mas por indicação e alerta de várias pessoas, evitava passar por alguns lugares – que até me marcaram no mapa. Mas eu fui longe, passei por diversos cerros, procurando as partes mais altas para fazer algumas panorâmicas da cidade. Fiquei realmente impressionado como a cidade é colorida e, mesmo com o aviso, eu fui andando sem saber onde estava.

No caminho de volta, repentinamente me deu vontade de fazer uma omelete bem alta e então, ao chegar no mercadinho perto do hostel e ver os ovos expostos a granel, não hesitei e comprei dois ou três. Achei estranho porque aqueles ovos estavam pesados, mas pensei que fossem “ovos diferentes” desses do Brasil. Ao chegar no hostel, já com água na boca, quando fui quebrar os ovos descobri que eles já estavam cozidos! Me desesperei! Foi-se meu plano da omelete! Ah, daí inventei mais uns sanduíches quentes mesmo, mas fiquei abismado com o fato dos ovos já estarem cozidos. Mais tarde nessa viagem, isso me ajudou, porque comprava ovos cozidos toda vez que me batia um pouco de fome. Ovos cozidos e tomates.

Me sentei na sala, comi, parecia estar sozinho no hostel. Dei uma volta pela vizinhança e quando voltei encontrei duas meninas belgas que estavam de passagem pela cidade, somente por aquela noite. Compramos bebidas e ficamos conversando na sala até tarde da noite. Muito queridas, tentei ensinar um pouco de Português para elas porque elas viriam ao Brasil para o Ano Novo, no Rio de Janeiro. Foram as únicas que eu adicioneu no Couchsurfing, todos os demais eu perdi os nomes junto com meu guia.

Acordei na mesma rotina de ir ao mercado comprar alguma coisa fresca pra beber e quando retornei já tinha mais gente no hostel. Tomamos um cafézão todos juntos, uma americana e um francês, e durante o café mesmo decidimos ir até a cidade de Viña del Mar pela orla. Montamos novamente mais lanches em nossas mochilas e fomos. Eu não fazia ideia da distância, mas também nem estava preocupado.

No caminho, paramos algumas vezes para observar os – que eu acho que eram – lobos marinhos e tomar água. Em pouco mais de uma hora e meia chegávamos em Viña del Mar, os oito quilômetros haviam sido superados. Uma cidade muito bonita, rica, com um estilo bem diferente de Valpo. Nada de cores vivas e pinturas poéticas em casas antigas. Aqui as belíssimas casas já dividem espaços com prédios maravilhosos, as ruas e calçadas são bem cuidadas e limpas. Os gramados te convidam para dar uma lagarteada por ali, a ver o movimento e a beleza da cidade bem verde.

Fiz questão de fazer uma foto no mesmo lugar da primeira vez que estive no Chile, nove anos antes.

Viña del Mar
Duas viagens memoráveis

Almoçamos uns salgados, visitamos uma feira de artesanato que estava acontecendo ali pela praia mesmo e voltamos, bem devagar. Ao chegar, descobrimos uma habilidade do nosso amigo francês. Depois do banho, começamos a cozinhar e ele ficou pela sala, desenhando algumas cenas que ele tinha visto no decorrer do nosso dia em Viña. Ele também fazia fotos, mas os desenhos dele eram livres, sempre de memória, e todos nós ficamos impressionados com tamanho detalhamento. Bebemos, conversamos e fomos dormir.

No outro dia fizemos um walking tour com um pessoal bem legal, o do Tours 4 tips (tour por gorjetas). Passamos por diversos pontos da cidade e a guia, super extrovertida e animada, nos explicava sobre os cachorros na rua (existem muitos deles!), sobre os prédios abandonados e como a prefeitura está facilitando a viabilização de negócios nesse tipo de lugar. Nesse momento eu me percebi como o Chile me parecia, até ali, mais desenvolvido do que o Brasil em diversos aspectos. Quando ela explicou que os bombeiros lá são voluntários, então, meu coração pifou. Sim, VOLUNTÁRIOS!

Valparaíso,
qué disparate
eres,
qué loco,
puerto loco,
qué cabeza
con cerros,
desgreñada,
no acabas
de peinarte,
nunca
tuviste
tiempo de vestirte,
siempre
te sorprendió
la vida,
te despertó la muerte,
en camisa,
en largos calzoncillos
con flecos de colores, …
– Pablo Neruda

Valparaíso sofre com os incêndios. Pela proximidade das casas, pelo calor seco da região e pela dificuldade de acesso nos cerros, todo incêndio lá é muito perigoso pois pode se espalhar rapidamente. Cada bombeiro voluntário carrega consigo um rádio, e no menor indício de fogo, largam os seus trabalhos e se direcionam para o foco, como podem. A Alemanha doou alguns caminhões para facilitar o atendimento de ocorrências.

Foi um dos maiores exemplos de cidadania que eu vi, até então. Motivos esses que me fizeram apaixonar tanto pelo Chile. A caminhada terminou num maravilhoso café com uma vista panorâmica incrível. Depois disso, ainda fomos dar mais uma volta, dessa vez com o Trolley Bus, os clássicos ônibus movidos a energia elétrica fornecida por cabos. Os ônibus, em Valparaíso, são muito antigos e são uma atração à parte da cidade.

Ainda vale o destaque para mais uma coisa. Não sei se vocês repararam, mas em algumas fotos dá pra ver várias pixações (e não os graffitis lindos de várias delas) nas paredes, né? Nos explicou a guia que em certo ponto houve um tipo de acordo entre os artistas dos graffitis e os pixadores, onde não seriam pixadas paredes que estivessem com alguma arte graffiti. E pode ver aí que funciona ainda.

Voltamos ao hostel, tomamos banho e saímos para jantar. O lugar, indicação do pessoal do hostel, era bem simples, mas muito conhecido por servir uma das melhores Chorrilanas da cidade. Esse prato é algo! Normalmente ele é gigante, e por isso se pede em conjunto e se compartilha com todos à mesa (aliás, esse é um hábito bastante comum no Chile). São batatas fritas, diferentes carnes em pedaços pequenos, cebolas e ovos fritos em cima de tudo isso. É uma bomba. O bom é que estávamos bebendo cerveja para equilibrar as coisas, então foi uma noite de gala pra quem estava à base de sanduíches e massa nos últimos dias. E esse seria o último dos cinco dias que fiquei lá. Mais tempo do que eu esperava, mas quando encontra-se pessoas assim, vale a pena gastar um pouco mais de tempo para conhecê-las.

A partida decepcionante

Por uma série de informações desencontradas somadas à caminhada por essas regiões não tão calmas da cidade em busca de carona, conforme o tempo ia passando eu ia ficando cada vez mais inquieto. Já estava na hora de eu continuar a minha viagem, eu não arranjava carona e nem tinha certeza se estava no lugar certo. Isso começou a me fazer querer recuar no plano de seguir com carona, pelo menos em Valparaíso, e foi aí que segui para a rodoviária, a pé mesmo, pensando em como minha ansiedade sempre me colocara para fora do caminho que eu tinha planejado. 

Chegando ao guichê para ver os próximos horários e destinos, olhei rapidamente no guia e chamou-me atenção uma Reserva Nacional que ficava perto da cidade de Talca. Para quem queria aventurar-se nas trilhas do País, parecia uma boa relação custo X benefício X tempo X direção. O sentimento de revolta e de decepção veio logo que me acomodei no ônibus.

Assim me despedi da cidade, feliz por ter pego o último lugar livre do ônibus, feliz por ter conhecido as pessoas que conheci e por ter visto lugares sensacionais, mas decepcionado.

No caminho, ainda remoendo  minha covardia de não ter seguido com o plano da carona e pessoalmente surpreso com o conforto do ônibus – viajar de ônibus no Chile é uma maravilha: bons ônibus a preços bem acessíveis – tive tempo de ler mais sobre a cidade de Talca, ter um breve momento de preocupação pelo horário de chegada e por não ter local para dormir, e imaginar a tal da Reserva Nacional Altos del Lircay.

Mal sabia que esse “deslize” me colocaria na estrada para uma história pouco credível, que vai sair no próximo post.

 

One Reply to “A aventura Chilena parte 4: Valparaíso, suas cores e a casa de Pablo Neruda em Isla Negra”

  1. Nuno Pedro Fernandes says: Responder

    “Mesmo que tenha sido um rápido encontro e conversa, a energia daquelas pessoas era tão boa que parecia que éramos todos velhos amigos de estrada.” Perfeito! Está tudo aí.

Deixe uma resposta